terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cala-te, Veronicka! II

Estava acordando quando a Veronicka mais uma vez saiu da gaveta. Eu cabisbaixa sem a mínima vontade de sair para ver o Sol, por volta das 8 da manhã:

Jessika: É por isso que eu odeio férias. Falta recheio.
Veronicka: Você se dói por dentro.
Jessika: Devo ir ao médico? Voltar ao psicólogo confuso? Tentar esportes radicais como fazer compras no centro de Fortaleza?
Veronicka: Eu não sei.
Jessika: Falou a que sabe de mim...
Veronicka: Eu sei de você, mas não posso responder seus métodos loucos de se anestesiar por dentro. Tá faltando a caixinha na farmácia. Uma dose de literatura e você cai dura no choro. O que você tem não tem cura.
Jessika: Uma dose e meia de trabalhos e eu levanto da cama num instante.
(silêncio)
Jessika: Eu sou uma grande careta.
Veronicka: Que nada... na verdade, você sofre da dor do amor romântico. Eu tinha a mesma síndrome, por isso eu criei minha obcessão na morte masculina pré-afetiva.
Jessika: Vou voltar a dormir...
Veronicka: Acorde, meu bem. Você vai sofrer que nem uma vaca de tetas puxadas, mas depois passa.
Jessika: Cala a boca, Veronicka!

Levantei, escovei os dentes, tomei banho e fui comer pão com café.

sábado, 28 de novembro de 2009

Photo-hai-cais!


Dançarina Flamenca
"Bater firme com o pé esquerdo...
Com qual das mãos eu escrevo?"

Na Janela
Ela era todo o sorriso
E o sorriso era todo dela.

(Des)prazer
Gozava da asa,
mas não levantava vôo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cala-te, Veronicka!

Veronicka é uma amiga imaginária que vim a ter aos 16 anos, ela veio me tirando o sono através de cartas- muitas delas estão com a Morganna. Isso numa noite qualquer, aqui no quarto. A Veronicka me escrevia barbaridades enquanto eu não dormia, atualmente ela se encontra na terceira gaveta da minha mesa, junto com as outras. Depois da Veronicka vieram a Laura, a Brigitte, a Clarissa e a Menina das Águas. (não necessariamente nessa ordem).

Hoje, pela manhã, a Veronicka saiu da gaveta:

-Jessika, você sente vontade de matar homens constantemente?
-Não, quer dizer, depende do homem... às vezes sim. Na verdade, eu... você sabe...
-É eu sei. Mas você, não!
-O que eu não sei?
-Muitas coisas, querida, inclusive eu. Quando eu tinha a sua idade, meu feitiche era matar os homens após sugá-los o "pearl jam".
-Viúva negra! Será que você é uma aranha em essência me perturbando o juízo?
- Tá vendo! Você não sabe de mim, mas eu sei de você. Jessika, se eu fosse você, exploraria mais a minha capacidade dominadora.
- Se eu fosse eu, talvez fizesse isso.
- Isso o quê? Estupraria lésbicas e torturaria homens inocentes?
- Isso é o que você faria. Não eu.
- E se você fosse você, o que estaria fazendo agora?
- Sinceramente, se eu fosse eu estaria nesse quarto tendo essa conversa contigo. Não consigo ver nada mais parecido comigo do que estar discutindo com uma assassina velha e nostálgica que mora na terceira gaveta da minha mesa.
- Então você está sendo você!

(Minha mãe passa pelo corredor e diz: "Jessika, quem está aí com você?" eu tento disfarçar pegando o celular e falo: "Veronicka, a gente se vê amanhã no Pici". Tenho certeza que minha mãe não achou normal, mas fingiu)

- Filha, o café está pronto, vem!
- Tou indo, mãe!

(Minha mãe sai e a Veronicka volta a falar)

- Estás louca! Falando sozinha... Esquizofrenia ou ócio sexual?
- Cala a boca, Veronicka!

(Saí do quarto, fui tomar o café da manhã.)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lá e cá

Bem incluída e acomodada nas sublimes tardes de setembro... é quase sempre este o meu estágio de "tudo sobre controle". O caso é que não há controle em nada, não há quem ligue e desligue a dinâmica dos tempos. O ócio foi embora e o passarinho azul pousou em você e disse: "é hora de crescer".
Então criou-se sobre nosso universo a idéia de estar maior a cada dia, mas a gente esqueceu que estar maior não necessariamente traduz o crescimento. A gente cria o próprio tempo e tem o poder de voltar sem ele (sabendo ou não o caminho de volta), apesar de perigoso, há sempre a opção - nem certa, nem errada - a opção existe.
Decidi ficar no meio fio, o lugar que não exige esforço, mas para estar contido nele é preciso ter um pé firme. Se eu estivesse em mim, não me haveria vida, nem esse tal do "se" insistente e agonizante o qual interrompe a passagem desta tarde.
Desconheço toda e qualquer forma de vida que foge do meu pensamento, desvirtuo todos os meus desejos antigos e até macero os meus restos que deixo pelo caminho. Se fosse para viver, eu não me bastaria. Se fosse para morrer, seria logo - jovem- quando a chama da vida é alta e bela. Se fosse um sonho, eu era de fumaça e bolas. Mas é para existir, e existindo só tenho indefinições.
Vai ver é isso que me separa do sentido maior, vai ver é o que me torna vivo, ou quase.
Respira fundo e sopra pros outros lados: as sete faces do mês.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ontem outrora, Outono!

Lembro de agosto porque foi um dos meses mais fodidos que vivi antes de deixar-te. Eu lembro das meias brancas que eu usava e lavava-as todos as noites para que o barulho das gotas d' água que escorriam viesse me tirar o sono. Do silêncio ensurdecedor que eram aquelas tardes de puro sadismo que Deus havia me arranjado.
Tento me esquecer das tardes, elas eram como engrenagens de ferro que maceravam-me o tronco que se reconstituia à noite. E era nessa boca que eu me libertava, passava as tardes todas engolindo seco o áspero desprazer da tarde e não me arrependia por conta do orgasmo noturno. As manhãs de agosto eram o mistério, as peripécias da vida escolhiam-na para tomar um café. Eu não existia nas manhãs, dissolvia à tarde e reconstituía a noite.
Tive que morder fios de aço para permanecer no medíocre agosto. Enrugava a face, cravava os dentes e o aço descia garganta abaixo. Depois desse exercício diário, era a vez de sujar meu corpo no seu para fingir a sua felicidade. Não houve um dia sequer naquele maldito calendário em que estive contente por sua causa.
Agosto e você me ensinaram a não ter o menor medo da solidão. Exceto as noites - que me ensinaram a amar o outono.

Clarissa

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Requiem for a dream

"Por que ser pertencente é entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente.), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não ter pertence não tem corpo.
Porque o corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea."
"Cantares" - Hilda Hilst.

Hilda Hist nem precisou graduar-se em física para conceituar a matéria e o seu espaço. E eu... uma cretina deslumbrada, tentando apegar-se a um verso, uma manhã chuvosa e Mozart para começar a viver arbitrariamente na segunda.
Ai- Ai... preciso de tantas coisas para conceituar as outras...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Aquilo que me cabe

Era noite.
Cegos de tanto vê-la, os companheiros precisavam estranhar a noite para admirar sua beleza. Doía pensar como o tempo distorcia a forma eufórica e estática que observavam o mundo. Pensavam até na fórmula do Elixir da euforia constante, mas depois baixavam os pensamentos ao lembrar que a constância também cai na garganta do descaso.
A angústia os tomava, pois eram companheiros fieis, quase partes de si. Como se a companhia de um ao outro fosse dona de ambos, como se eles fossem peças acomodadas, tão bem acostumadas, que até pareciam ter um encaixe perfeito. A dor era pensar que o tempo levaria tudo, inclusive a companhia que lhes era parte.
Era impossível guardar aquele momento, todos os momentos acabam. E todos dois pertenciam aos momentos. Tomado de coragem, um dos companheiros arrancou um fio do seu cabelo e entregou ao outro, com o intuito de captar as vibrações do tempo que não se fazia presente.
O outro companheiro agarrou o fio como se fosse a peça chave de toda sua vida. Não passou mais que cinco segundos até que ele jogasse o fio abismo abaixo, mantendo em sua face uma expressão triste da perda misturada à alegre sensação de eternidade.
O companheiro, profundamente magoado, repartindo-se em moléculas, pergunta:
- Por que jogaste no abismo o pedaço de mim que entreguei com tanto carinho?
O outro, com um sorriso escondido no canto do olho, responde:
- Porque quando o tempo te fizer distante, saberei onde estará para sempre um pedaço teu.



isso é para jogar as lembranças no abismo, inclusive a nossa inocente idéia de guardar o tempo.